A busca incansável para se enquadrar nos padrões estéticos de beleza leva muitas pessoas a fazerem de tudo para alcançá-los: dietas restritivas, cirurgias plásticas em diferentes partes do corpo, consumo de pílulas que prometem resultados milagrosos.
Um procedimento amplamente divulgado por celebridades e influenciadores digitais reforça essa lógica: conhecido popularmente como “chip da beleza”, o dispositivo prometia (e, infelizmente, ainda promete, em canais informais) benefícios tentadores às mulheres: fim da menstruação, redução de cólicas e inchaço, alívio da TPM, aumento da libido e definição muscular.
No papel, um sonho de consumo, só que nos últimos anos, órgãos reguladores, sociedades médicas e pesquisadores brasileiros têm alertado, cada vez com mais força, sobre os efeitos colaterais desse implante usado de forma inadequada.
A situação é tão grave que o produto deixou de ser apenas alvo de restrição publicitária e passou a ter sua fabricação, manipulação, comercialização e uso suspensos em todo o território nacional.
Neste artigo, atualizado com as decisões regulatórias mais recentes e com estudos brasileiros sobre o tema, explicamos o que é, de fato, esse chip “milagroso”, por que ele foi proibido e quais riscos reais ele oferece à saúde.
O que é o chip da beleza
Do tamanho aproximado de um palito de fósforo, com poucos centímetros de comprimento, o chip da beleza é um dispositivo de silicone, semelhante a uma haste flexível, implantado sob a pele, geralmente na região dos glúteos ou do abdômen.
Apesar do apelido ligado à estética, o nome tecnicamente correto é “implante hormonal manipulado”, já que ele costuma ser produzido em farmácias de manipulação, sem o mesmo controle de qualidade, dosagem e segurança exigido dos medicamentos industrializados registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A substância mais associada a esses implantes é a gestrinona, um hormônio sintético de ação antiestrogênica e androgênica, originalmente estudado por via oral para tratamento de endometriose, distúrbio ligado ao crescimento anormal de tecido do útero fora da cavidade uterina.
É importante frisar esse ponto: mesmo quando aprovada para uso clínico, a gestrinona é indicada em comprimidos, em doses baixas, entre 1,25 mg e 2,5 mg, e nunca na forma de implante subcutâneo. Não existe, portanto, respaldo científico para o uso da substância dessa maneira.
Segundo relatos de especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o dispositivo passou a ser comercializado com fins estéticos há cerca de cinco anos, quando profissionais e clínicas começaram a associar a gestrinona a outros hormônios e anabolizantes, prometendo aumento de massa magra e redução de gordura corporal.
Foi nesse contexto que surgiu o apelido “chip da beleza”, um nome de marketing que mascara a complexidade farmacológica e os riscos reais da substância.
Na teoria vendida ao público, o procedimento prometeria aumentar a libido, fortalecer os músculos, amenizar a celulite, elevar a massa magra corporal e interromper o fluxo menstrual, reduzindo os sintomas da TPM.
Na prática, segundo especialistas e entidades de saúde, o dispositivo não entrega esses benefícios de forma segura e pode provocar danos importantes, muitos deles irreversíveis.
A escalada regulatória: de alerta a proibição total
O caso do chip da beleza é um exemplo raro de como a pressão de sociedades médicas pode levar a mudanças regulatórias concretas no Brasil. Vale a pena entender essa linha do tempo, porque ela ajuda a dimensionar a gravidade do problema.
Em setembro de 2021, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), por meio da Comissão Nacional Especializada de Climatério, publicou uma nota afirmando não existirem dados científicos suficientes que validassem o uso do implante, seja para terapia hormonal da menopausa, seja para contracepção ou fins estéticos. A entidade destacou que a gestrinona havia sido estudada apenas por via oral, sem estudos de longo prazo sobre o uso do implante.
Ainda em 2021, a SBEM também se posicionou publicamente, afirmando que o implante de gestrinona não é reconhecido nem recomendado por sociedades internacionais de referência, como a Endocrine Society (dos Estados Unidos) e a North American Menopause Society.
Diante desse cenário, em dezembro de 2021 a Anvisa publicou a Resolução nº 4.768, proibindo a propaganda de produtos à base de gestrinona, um primeiro passo importante, mas ainda limitado, já que não impedia a fabricação nem o uso do produto.
Nos anos seguintes, o número de relatos de efeitos adversos continuou crescendo. Sociedades médicas, incluindo a Febrasgo, encaminharam à Anvisa um pedido formal de providências sobre o uso indiscriminado dos implantes hormonais no país. Em 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução CFM nº 2.333/2023, vedando a prescrição médica de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, seja para ganho de massa muscular, seja para melhora de desempenho esportivo, por falta de comprovação científica suficiente.
O desfecho mais relevante veio em 18 de outubro de 2024. Nesse dia, a Anvisa publicou, em edição extra do Diário Oficial da União, uma resolução suspendendo a manipulação, a comercialização, a propaganda e o uso dos implantes hormonais manipulados conhecidos como chip da beleza em todo o território nacional.
A medida teve caráter preventivo e foi motivada, entre outros fatores, pela ausência de estudos e comprovações científicas sobre os supostos benefícios estéticos, pelas denúncias formais de entidades médicas como a Febrasgo e pelo uso de substâncias sem avaliação de segurança para esse tipo de aplicação.
De acordo com a própria Anvisa, esses implantes nunca passaram por avaliação formal de segurança pela agência. Em nota, a Febrasgo celebrou a decisão, afirmando que a falta de fiscalização e controle sobre esse tipo de produto colocava em risco a saúde da população. O CFM também se manifestou publicamente apoiando a medida, reforçando que ela estava alinhada à Resolução CFM 2.333/2023.
Mais recentemente, a Anvisa avançou para uma regulamentação mais detalhada, criando exigências rigorosas para os poucos usos clínicos ainda permitidos (fora do contexto estético), como a obrigatoriedade de um Termo de Responsabilidade e Esclarecimento, documento que deve ser assinado em três vias (uma para o prontuário médico, uma para a farmácia de manipulação e uma para o paciente), informando com clareza os riscos do implante.
Segundo a Febrasgo, essa não é uma liberação irrestrita do produto, mas uma tentativa de equilibrar autonomia médica e segurança do paciente, mantendo proibido o uso com finalidade estética.
Por trás do “milagre”: o que a gestrinona faz no corpo
As opiniões de especialistas e órgãos de saúde a respeito do chip da beleza são, na prática, opostas às promessas feitas por quem o defende nas redes sociais. Isso acontece porque o dispositivo libera diariamente, e de forma descontrolada, uma combinação de hormônios, em maior parte gestrinona, substância com ação androgênica, ou seja, que se comporta de maneira semelhante a hormônios masculinos como a testosterona.
Em entrevista à revista Veja, o endocrinologista Cesar Boguszewski, então presidente da SBEM, descreveu efeitos colaterais observados em pacientes: pele com acne e oleosidade, queda de cabelo, crescimento de pelos em regiões atípicas e aumento do clitóris. Um dos efeitos mais citados por especialistas, e apontado como irreversível mesmo após a retirada do implante, é o engrossamento da voz.
Além dos efeitos estéticos indesejados, que ironicamente contrariam a própria promessa do produto, a SBEM chama atenção para consequências mais graves à saúde. Segundo Boguszewski, o organismo feminino tem um metabolismo diferente do masculino, e o processo natural de transição hormonal ao longo da vida funciona, em parte, como fator de proteção contra certas doenças.
Com o implante, o corpo passa a operar sob um perfil hormonal mais androgênico, o que pode aumentar o risco de colesterol elevado, doenças cardiovasculares e outros problemas sérios de saúde.
Posicionamentos técnicos da Febrasgo e da SBEM detalham ainda mais esses riscos, associando o uso abusivo desses implantes a efeitos como dislipidemia (alteração nos níveis de gordura no sangue), hipertensão arterial, arritmia cardíaca, tromboembolismo, acidente vascular cerebral (AVC) e infarto agudo do miocárdio.
Há também relatos de hepatotoxicidade (dano ao fígado) e nefrotoxicidade (dano aos rins), além de impactos negativos sobre o metabolismo hormonal e a regularidade dos ciclos menstruais.
Outro ponto pouco discutido, e igualmente preocupante, diz respeito ao uso abusivo de andrógenos de forma geral. Segundo pesquisadores que revisaram o tema em periódicos brasileiros, esse tipo de uso pode provocar a supressão do chamado eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, sistema hormonal responsável por regular a produção de hormônios sexuais no corpo.
Essa supressão pode levar a quadros de hipogonadismo secundário, e o retorno do eixo hormonal ao funcionamento normal, depois da interrupção do uso, pode levar meses ou até anos.
Essas consequências mais sérias, no entanto, costumam surgir a médio e longo prazo. No início do uso, as substâncias liberadas pelo implante geram uma sensação passageira de bem-estar e podem induzir a uma perda de peso inicial, o que aumenta a autoestima e reforça, de forma enganosa, a crença de que o produto “funciona”.
Segundo o próprio Boguszewski, dependendo da mistura e das doses administradas, que variam bastante entre farmácias de manipulação, o implante pode ainda alterar os níveis de insulina no organismo e sobrecarregar órgãos importantes.
O que dizem os estudos sobre o tema
Além dos posicionamentos institucionais, pesquisas acadêmicas brasileiras recentes ajudam a entender o perfil de quem usa o chip da beleza e os efeitos relatados por essas pessoas.
Um estudo transversal, descritivo e analítico conduzido entre março e maio de 2023 com 30 mulheres de 18 a 55 anos residentes em Juiz de Fora, em Minas Gerais, e publicado na revista científica Ciência et Praxis, investigou o perfil sociodemográfico, as percepções e os efeitos adversos autorrelatados por mulheres que usaram implantes de gestrinona com finalidade estética.
Os autores do estudo destacam que o uso off-label desses implantes tem se expandido entre mulheres que buscam emagrecer e ganhar massa magra, mesmo diante da ausência de evidências científicas robustas que sustentem sua segurança e eficácia para esse fim, e da inexistência de protocolos regulamentados para esse tipo de aplicação.
A pesquisa reforça um ponto central deste artigo: a percepção positiva relatada por parte das usuárias contrasta fortemente com a avaliação técnica de órgãos reguladores e sociedades médicas brasileiras, que classificam o uso estético da gestrinona como uma prática sem respaldo científico e potencialmente danosa à saúde.
Outros artigos publicados em revistas científicas e periódicos de saúde brasileiros nos últimos anos, voltados especificamente aos efeitos adversos da prescrição inadequada do implante de gestrinona, reforçam esse conjunto de riscos, reunindo referências de sociedades médicas nacionais e internacionais, além de relatos de caso que documentam complicações graves associadas ao uso indiscriminado do produto.
“Benefícios” restritos a um perfil bem específico de mulheres
Um fato pouco comentado sobre o chip da beleza diz respeito a quem, de fato, relata ganhos estéticos com o seu uso. Como vimos, o dispositivo recebeu esse apelido por conta de supostos benefícios: ganho de massa muscular, aumento de disposição e de libido, entre outros.
No entanto, segundo especialistas em ginecologia consultados pela imprensa, o implante de gestrinona não tem, e nunca teve, como finalidade embelezar ninguém.
As poucas mudanças percebidas como positivas por parte das usuárias tendem a se concentrar em um perfil bem específico: mulheres já magras, jovens e com rotina ativa de exercícios físicos regulares, ou seja, justamente o grupo que, independentemente do uso do implante, já apresenta hábitos de vida associados a um corpo mais definido.
Isso ajuda a explicar por que depoimentos de celebridades e influenciadores, muitas vezes já adeptas de rotinas rigorosas de treino e alimentação, acabam distorcendo a percepção pública sobre a real eficácia (e, principalmente, a segurança) do produto.
O caminho real para se sentir bem e com saúde não é implantado
Quem opta por recorrer a hormônios com fins estéticos costuma, na ansiedade por resultados rápidos e com o mínimo de esforço possível, deixar de lado o que realmente importa: a saúde a médio e longo prazo.
O preço de tentar se encaixar em padrões estéticos pode sair muito caro, inclusive em termos irreversíveis, quando atitudes como essa são colocadas em prática sem orientação médica responsável e sem respaldo científico.
Por isso, a melhor opção, ainda que menos glamourosa e mais lenta, continua sendo a construção de hábitos saudáveis sustentáveis: atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado e acompanhamento profissional quando necessário. Não existe atalho seguro para o bem-estar duradouro, e qualquer promessa nesse sentido merece ser recebida com desconfiança, especialmente quando não vem acompanhada de evidência científica sólida e de aprovação dos órgãos reguladores competentes.